- Eu disse "No"!
- Deu na "Federal"
Eu disse "No"!
Não sabia o que era foder fazia mais de um mês...
Aquele tempo que eu passara em Saquarema, como casta professora primária, deixara-me tensa como um cabo de aço da Ponte Rio-Niterói.
Tudo que eu queria era poder ficar um final de semana incógnita, com um homem bem-dotado, que pudesse matar meus desejos que se acumulavam em ânsia incontida.
Subi no ônibus a caminho de Niterói e pouco depois, no ponto seguinte, subiu uma cara de uns trinta anos, tez queimada do sol, bigode farto, castanho, da cor dos cabelos, corpo bem feito sem ser sarado, com mocassim sem meia, bermudas e camisa polo onde se lia “Property of World’s Women”.
Bem... O anúncio era promissor... Assim como quem não quer nada, perguntei-lhe se notara o que estava escrito em sua camiseta — não ia ser indelicada de perguntar se ele sabia inglês.
Para minha surpresa o cara fez uma cara de bobo, dando a entender que não compreendia o que eu estava dizendo, o que complementou com as palavras “nao com-prendo”.
Meio abestalhada de encontrar um gringo num coletivo, virei num inglês escrachado e perguntei “do you speak English?”
Bem... A partir do “Yeah!” tudo mudou entre nós... Ele começou a me ver como sua salvadora e eu, é logico, não de forma tão religiosa assim... Digamos, por assim dizer, que o que eu pretendia fazer, muito longe de ser coisa de salvadora, era coisa de “fudedora”...
Mas tudo tinha seu tempo... Sua hora...
Bem, era isso que eu imaginava, mas o gringo, se levantando, disse “I gotta go!”
E eu disse “No!”
Com cara de incrédulo ele me olhou e disse “What?”
Eu fiz beicinho, olhei-o com cara de sapeca e lhe falei: “You can’t leave just like that... I planned to lay-down with you...”
Ele arregalou os olhos e, sem dizer uma palavra, sentou-se novamente. Sentado, aí sim fez um gesto com a mão aberta, dedos unidos, levando as pontas dos dedos à minha direção: “at your service my queen” — 'speakou'.
Ao chegar em Niterói, paramos para comer e depois fomos para o meu apartamento. Iniciamos um banho que não se completou... Ficamos de sacanagem e deu início à fudelança... Duas horas depois eu já estava relaxada, do que jeito que havia imaginado...
Mas aí o bigodudo não baixava mais... Fiz-lhe uma punheta, um canguru perneta e ia partir pro boquete quando ele então me pegou por trás e deu a entender o que queria...
Ah aquilo ia ser bom! Tomei-o na minha boca, deixe-o bem lambuzado e, quando ele menos esperava, sentei de vez no caralho, enterrando até o saco...
Se achas que é assim de colher, sendo homem ou mulher, tentes fazer sem doer...
Você vai é se fuder...
Se for mulher, pela via normal; se for homem aí é o canal... Já que além de perderes o cabresto, ficarás bem a pretexto, com as bolas inchadas pelo menos meio dia, a menos que aqui essa tia, rebole com galhardia e lhe tire toda a agonia...
E se você achou que não ia ter rima porque era crônica, se fudeu também!
. . . . . .
Deu na "Federal".
O telefone tocou e Zulmira atendeu louca de curiosidade! Quem mais poderia ser quarta-feira às sete da noite senão o bicheiro?
— Alô — Disse com certa ansiedade na voz, já olhando para o papelzinho com os números que jogara.
Só jogava de quarta e sábado, porque então o resultado era pela “Federal”. Não tinha essa do bicheiro falar qualquer número... Ela entrava na Internet e ia conferir.
— Alô — Disse uma voz que Zulmira conhecia bem, a do bicheiro...
— O Alcebíades está? — Perguntou a voz.
— Está... Mas pode falar comigo — Respondeu Zulmira...
Ora! Há tempos que ela era a tesoureira da casa. Nada se gastava sem que houvesse sua aprovação... Até o dinheiro da fezinha, que o Bidão gastava semanalmente, tinha que ter sua aprovação pré-vi-a... Portanto não hesitou...
— Pode falar comigo... O quê que deu?...
O bicheiro se mostrou reticente, porém insistiu:
— Eu queria falar com o Alcebíades... Ele está?
A mulher, já meio revoltava com essa estória de ser posta de lado, em tom seco pediu que esperasse que ela ia chamar o Bidão...
Saiu à porta da cozinha, que dava para o quintal, e deu um berro pro Bidão, que se ocupava em colher umas espigas de milho que plantara há algum tempo...
Quando o marido apareceu ela disse:
— É o bicheiro... Não quer falar comigo...
O Bidão esfregou as mãos na calça, à altura das coxas, e entrou para atender o telefone. De cara, quando pegou o bichinho, antigo, ainda com aquele fio em espiral, esticou-o ao máximo e adentrou a dispensa, um quartinho cuja porta ficava bem ali ao lado do telefone, e encostou a porta...
A mulher, troncha de curiosidade, encostou o ouvido na fresta deixada para a passagem do fio e ouviu o marido, exultante, ir repetindo os números que o bicheiro lhe falava. Ao final, ouviu o marido dizer
— É meu... Eu ganhei...
A mulher incontinenti dirigiu-se ao computador e pôs-se a conferir os números que escutara... Eram números longos... Mas ela tinha experiência... Milhares, centenas, dezenas, etc...
Nenhum batia e tudo levava a crer que não se tratava de jogo pela “Federal”.... Seria possível que o Bidão jogara na loteria das três? Aquele que ninguém sabia os números senão o bicheiro?
“Ora, com que dinheiro?” — Pôs-se a pensar Zulmira... Ela estava num daqueles casos de traição sem a outra... O que estaria pensando Alcebíades? Em encher o bolso com a bufunfa e dar-lhe um pé na bunda?
Quando o Bidão saiu da dispensa, repousou o telefone no gancho e disse prá Zulmira:
— Mulher, quase acertamos no milhar... Mas não foi dessa vez...
“Dessa vez uma pinóia” — Pensou Zulmira com seus botões. Ela sabia muito bem que os números falados não passavam nem perto do jogo feito... Ali tinha dente de coelho...
Zulmira passou o resto da noite de rabo virado. No jantar não pôs a mesa e disse ao Bidão que, se quisesse, a comida estava em cima do fogão... Foi dormir sem tomar banho e se assegurou muito bem de que o velho Bidão não viesse prá cima dela; naquela noite não ia ter nada... Nem cu, nem buceta, nem sequer uma punheta...
O Bidão entendeu o recado, virou de lado e dormiu...
Ao contrário do seu costume, pela manhã o Bidão se barbeou, vestiu um terno claro invés da tradicional calça social com camisa de manga curta, e saiu pro trabalho... Nem sequer foi de carro... Saiu caminhando e, já distante de casa, pelo celular chamou um taxi....
Zulmira levantou com os cornos virados. Já estava acordada quando o Bidão levantou... Aliás pouco conseguira pregar o olho... Viu muito bem como o marido se arrumou. Já tinha se arrumado, que nem uma perua, e se preparava para pegar o carro do Bidão e ir até o escritório dele, quando tocou a campainha...
Na porta apareceu um deus grego, com um metro e oitenta, cabelos louros ondulados, corpo de Adonis vestindo um terno caro, gravata azul claro, que foi logo lhe dizendo...
— Vim trazer o prêmio...
“Com o quê” — pensou Zulmira — “algo saíra errado porque o pagador estava ali, na sua porta...”
Ela conhecia o sujeito, era muito cobiçado pelas mulheres da redondeza. Filho do banqueiro, era o homem do dinheiro, não passava nem um dia sem que o sujeito comesse a Maria, do açougueiro; ou a Rosinha, do padeiro, e tudo quanto é mulher. Tinha até mulher solteira que jogava a semana inteira, só prá ver se ganhava a visita do rapaz...
O dinheiro? Nem contava mais!...
Mas com Zulmira era diferente. A grana, primeiro! Depois a gente veria...
Mas aí surgiu um problema: o papel que ela tinha não era o que valia, segundo ela sabia...
Aí, sem mais delonga, Zulmira tirou o vestido, o sutiã e a tanga e, só de salto alto, encostou sua xana no nariz do rapaz, quase em rima arranjada, declarou descarada:
— Se gostas de chavasca, acho bom abrir a pasta e me dar logo a grana, pois senão não vai ter xana, muito menos um boquete; o meu cu, que é de ouro, você jamais comerá! Se eu gritar você vai ver o que é se fuder.
O rapaz todo sorrisos, sem pestanejar, abriu a pasta e disse:
— Tó... Pode ficar...
— Quanto é meu? — Perguntou Zulmira, desconfiada, e moço respondeu...
— A pasta inteira sua, mas só se você fizer tudo que prometeu...
Zulmira fechou a pasta, nem conferiu direito, escondeu no quarto e voltou... Abriu o zíper do rapaz... Enquanto caia de boca pensava:
“Filha da puta do Bião, ele vai ver como é bom agir com traição!”
E se pôs a dar com vontade, primeiro de quadro e depois de frente. Já estava toda contente, com a pica no cu, quando assim de repente, se armou um sururu.
O Bidão entrou de supetão, com o Delegado e o Escrivão. Foi um flagra arretado, o maior rebu, com a Zulmira tomando no cu...
Agora duplamente...
O Escrivão lavrou no ato o termo de ocorrência, que atestou com veemência, com o testemunho indefectível do Doutor Delegado e do Bidão exaltado que queria Zulmira matar.
Zulmira se aguentou, sabia que estava tudo acabado, porém com altivez, sem descer do salto alto, vestiu ali na sala, uma peça de cada vez: a tanguinha, o sutiã, o vestido... Foi pro quarto e muito matreira, jogou de qualquer maneira, a maleta pela janela.
Voltou pra sala de casaco e na frente do Delegado, puxou um smartphone avançado. Chamou um taxi por radio, com nenhum deles falou, só pro gostoso olhou.
Saiu pela porta da cozinha, deu a volta pegou a maleta, pôs embaixo do casaco, esperou o taxi na esquina...
Mal saiu a descarada, os três caíram na risada, acompanhados do rapaz, que sério assim falou:
— Ontem você ganhou, mas amanhã será a vez da Dona Leonor, a mulher aqui do Doutor... Desse jeito, com certeza, agindo com presteza, até o fim do verão, acabou-se a safadeza, aqui da nossa região. Seja solteira ou casada, viúva ou divorciada, mulher que dá por dinheiro faz da casa um puteiro!
E Zulmira decidida, sentada no banco de trás, abriu a pasta e viu que o monte de dinheiro era tudo de um cruzeiro, nota já sem valor. Sem perder a pose, tirou no carro o vestido, a tanguinha e sutiã e perguntou pro motorista, sem sequer ser sutil:
— o senhor tem troco pra mil?
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Você não pensou — de novo! — que porque era crônica não ia ter rima, né?


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